Chorumela n° 9

15jul09

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procurava nas gavetas dos arquivos mnemônicos, por debaixo da poeira venenosa, das manchas, dos pontos cegos, na elegibilidade da memória mais longínqua. não havia um sinal de vida. estava tudo inacessível. nem a pena mais afiada, converteria aquele marasmo que se finge vida em ficção. não havia sabor senão o dos rótulos das embalagens de produtos congelados. nada fora de roteiro, tudo contido estreitamente, como que gestando uma volátil supernova daquela densa concentração de nadas.

não fumava, mas comprei cigarros. caixas de lojas de conveniências 24h podem ser cruéis como carrascos. elas detectam a fraqueza humana como nenhum outro segmento não qualificado do trabalho pós-moderno-sem-hífen. ficando apenas atrás, as cucaratchas, dos taxistas, que rodam demasiado fora de rota ao notar qualquer alheamento por parte do passageiro dos caminhos e atalhos no emaranhado das ruas.

este sol do solstício que não nos aquece, torna tudo um pouco escuro. fico anárquico quando inverna, torno-me lunar. talvez por não haver ao astro rei sua total soberania. órfão desgarrado, sinto uma vontade imensa de tomar um porre, de trepar e fazer poesia. uma disposição primaveril, fora de época.

a luz reclina-se sobre a terra, e projeta obliquamente as sombras dos pássaros nos jequitibás. não tem cheiro de flores e parece tudo um pouco

morto. as pessoas se resguardam em seus cachecóis, seus narizes vermelhos de uma gripe coletiva, por todos os lados.

embriagado, me deleitava na poltrona da biblioteca municipal “a ler doutrinas de outros tempos em curiosíssimos manuais”. notei que haviam grifos em determinados itens do índice geral do volume. a página 51 estava circulada a lápis.

como tivera publicado em uma coletânea, um poema de amor, imaginei se por acaso a página do meu poema estaria grifada em algum exemplar, entre os poucos milhares da tiragem. Drummond que nunca fui, sai para fumar um

crivo. da minha boca, uma neblina do meu hálito antecipou o trago. o que seria isso que nos assalta sempre e nos causa o embaraço de debruçar sobre o caixa eletrônico de um banco e compor uma canção urgente, ao estilo “Mário Gatti”, pelo simples motivo de nos ocupar a mente numa tirania lírica?

pensei comigo que a arte não simula o real. não seria o real, antes, simulado por todos os nosso sentidos? calculo que a arte simula os sentidos…

mas qual a finalidade de toda representação? guy debord condena o espetáculo, a mercadoria, e vice e versa. mas nem todo espetáculo é arte… e vice versa. verdade que nos vulnerabilizamos diante do que é grandioso, seja um fenômeno da natureza, ou sua representação.

verdade também que hoje qualquer fiapo de manifestação da força do trabalho humana está sujeito a se tornar produto de consumo, e é devidamente embalado em prateleiras, exibido em out doors, nos assalta nos pop ups, reclames compulsórios, pelos quais nunca nos interrogaram o apetite.

dou mais um trago. as pessoas sonambulam como peixes. suas imagens são diariamente refletidas nos aquário do entretenimento. sigo crente que os poemas de amor, já não podem simular muita coisa além de beijos de novela…



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