extudos
de uma parca leitura a mallarmé

I
não fosse a exatidão
do trivial redor
e suas cifras
chagas-
tehntativas de palavras
tudo se desvanesceria
e seria a poesia
rastro-
tentativas de objetos
II
o olho:
furo por onde vaza o todo
poro por onde o lume incide
na forma transposta dos corpos
que decodificulto em coisa
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Tags:literatura, poesia
Campinas não vale um poema

campinas, meu amor
seus viadutos de nada
bares em cada vão
céu de salmão, estrelas
onde agoniza um cão
seus braços de gente
seus dentes
dutos e vias nuas
rua e putas,
tu mentes
vitrines e flores,
escadas e corredores
tudo em você respira
campinas, tua epiderme
quero morrê-la cem vezes
de asco, paixão, tiroteio
rubros algarismos do mirante
me dizem quinze pras tanto
o tráfego lambe as almas
pelo viaduto cury
o cheiro de peixe no mercado de peixe
o cheiro de flores no mercado de flores
o cheiro de podre no mercado da vida
quem nunca expirementou
caminhar em um domingo
pelas ruas encardidas
quando tudo ja foi, campinas,
não perdeu nada de bom
senão uma certa tristeza
que as andorinhas fantasmas de seus becos
sussuraram certa vez nos meus ouvidos
e que nunca mais deixou de ser canção
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Tags:poesia
Café.com Chet Baker
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Tags:chet baker, musica, playlist, tape
Chorumela n° 9

procurava nas gavetas dos arquivos mnemônicos, por debaixo da poeira venenosa, das manchas, dos pontos cegos, na elegibilidade da memória mais longínqua. não havia um sinal de vida. estava tudo inacessível. nem a pena mais afiada, converteria aquele marasmo que se finge vida em ficção. não havia sabor senão o dos rótulos das embalagens de produtos congelados. nada fora de roteiro, tudo contido estreitamente, como que gestando uma volátil supernova daquela densa concentração de nadas.
não fumava, mas comprei cigarros. caixas de lojas de conveniências 24h podem ser cruéis como carrascos. elas detectam a fraqueza humana como nenhum outro segmento não qualificado do trabalho pós-moderno-sem-hífen. ficando apenas atrás, as cucaratchas, dos taxistas, que rodam demasiado fora de rota ao notar qualquer alheamento por parte do passageiro dos caminhos e atalhos no emaranhado das ruas.
este sol do solstício que não nos aquece, torna tudo um pouco escuro. fico anárquico quando inverna, torno-me lunar. talvez por não haver ao astro rei sua total soberania. órfão desgarrado, sinto uma vontade imensa de tomar um porre, de trepar e fazer poesia. uma disposição primaveril, fora de época.
a luz reclina-se sobre a terra, e projeta obliquamente as sombras dos pássaros nos jequitibás. não tem cheiro de flores e parece tudo um pouco
morto. as pessoas se resguardam em seus cachecóis, seus narizes vermelhos de uma gripe coletiva, por todos os lados.
embriagado, me deleitava na poltrona da biblioteca municipal “a ler doutrinas de outros tempos em curiosíssimos manuais”. notei que haviam grifos em determinados itens do índice geral do volume. a página 51 estava circulada a lápis.
como tivera publicado em uma coletânea, um poema de amor, imaginei se por acaso a página do meu poema estaria grifada em algum exemplar, entre os poucos milhares da tiragem. Drummond que nunca fui, sai para fumar um
crivo. da minha boca, uma neblina do meu hálito antecipou o trago. o que seria isso que nos assalta sempre e nos causa o embaraço de debruçar sobre o caixa eletrônico de um banco e compor uma canção urgente, ao estilo “Mário Gatti”, pelo simples motivo de nos ocupar a mente numa tirania lírica?
pensei comigo que a arte não simula o real. não seria o real, antes, simulado por todos os nosso sentidos? calculo que a arte simula os sentidos…
mas qual a finalidade de toda representação? guy debord condena o espetáculo, a mercadoria, e vice e versa. mas nem todo espetáculo é arte… e vice versa. verdade que nos vulnerabilizamos diante do que é grandioso, seja um fenômeno da natureza, ou sua representação.
verdade também que hoje qualquer fiapo de manifestação da força do trabalho humana está sujeito a se tornar produto de consumo, e é devidamente embalado em prateleiras, exibido em out doors, nos assalta nos pop ups, reclames compulsórios, pelos quais nunca nos interrogaram o apetite.
dou mais um trago. as pessoas sonambulam como peixes. suas imagens são diariamente refletidas nos aquário do entretenimento. sigo crente que os poemas de amor, já não podem simular muita coisa além de beijos de novela…
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Tags:Chorumelas, espetáculo, Guy Debord
Lusophonia II°
A segunda Nau Lusophonia aportou em nosso litoral trazendo da Terrinha uma tonelada de frutas exóticas, que os nativos chamam pelo nome de Toranja.
A toronja ou toranja ou grapefruit (Citrus x paradisi) é um citrino híbrido, resultante do cruzamento do pomelo (Citrus maxima) com a laranja (Citrus x sinensis). É formado por Tiago Bettencourt (Voz, guitarras e piano), Ricardo Frutuoso (guitarras), “Dodi” (baixo) e “Rato” (bateria). Seu primeiro disco – Esquissos - foi lançado em Portugal no ano de 2003 e alcançou grande sucesso com músicas como “Carta” e “Fogo e Noite”. O segundo disco – cujo nome é “Segundo” – foi lançado em Portugal, no ano de 2005, e no Brasil, no ano de 2006. Este trabalho foi igualmente um sucesso, tendo como primeiro single a música Laços. Tendo sucedido a Esquissos, o seu primeiro single foi Laços. Foi publicado em 2005 pela editora Universal Music (Portugal). Durante o ano de 2006 a banda participou, junto à banda brasileira Los Hermanos, de uma turnê por várias cidades de Portugal. Em Dezembro de 2006, os Toranja pararam de trabalhar por tempo indeterminado mas prometeram voltar.

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Tags:download, Lusophonia, musica, toranja
Hidehidehidehi (Hidehidehidehi)
Whoah (Whoah)
Hedehedehedehe (Hedehedehedehe)
A hidehidehideho (Hidehidehideho)

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Tags:Betty Boop, Cab Calloway, jazz, Minnie The Moocher, musica, video
Segundo Arrigo Barnabé, Itamar nunca se pretendeu um músico experimental, como geralmente era considerado pela crítica. Tampouco admitia o rótulo de hermético atribuído por quem esperava dele a lírica digestível do mercado de entretenimento de massa. Na verdade, Itamar tinha nada menos que a pretensão de ser, seguno ele póprio, compositor de múica popular. Mas o talento para a liberdade criativa e sua intríseca rebeldia poética nunca foram atributos queridos no processo de massificação e brutalização da cultura popular. Itamar seguiu assim sua carreira sobre o cume dialético de uma ingrata e cativa égide de maldito. Termo com o qual brinca desde o primeiro disco, em que fazia emergir no reagge de seu rock urbano, entre esquinas, sirenes e navalhas, o perigosíííííísssssssimo Nego Dito, personagem que permeia todo o disco Bleléu Leléu Éu, em incursões radiofônicas e uma vinheta em que finalmente se entrega, juntamente ao bando Isca de Polícia.
A edição de Fevereiro do Suplemento Literário, traz um ótimo ensaio de Ricardo Corona sobre este grande artista obscurecido e iluminado pela incompreensão.
Suplemento Literário – Fevereiro 2009

“Cultura Lira Paulistana”:
Não há ó gente ó não luar como este do
sertão”. Pobre cultura a ditadura pulou
fora da política e como a dita cuja é
craca é crica foi grudar bem na cultura
nova forma de censura pobre cultura
como pode se segura mesmo assim mais
um pouquinho e seu nome será amargura
ruptura sepultura também pudera
coitada representada como se fosse piada
Deus meu por cada figura sem compostura
onde era Ataulfo Tropicália Monsueto
dona Ivone Lara campo em flor ficou
tiririca pura porcaria na Cultura tanto
bate até que fura que droga merda cultura
não é uma tchurma cultura não é tcha
tchura cultura não é frescura a brasileira
é uma mistura pura uma loucura a textura
brasileira é impura mas tem jogo
de cintura se apura mistura não mata
cultura sabe que existe miséria existe
fartura e partitura cultura quase sempre
tudo atura sabe que a vida tem doce e é
dura feito rapadura porcaria na cultura
tanto bate até que fura cultura sabe que
existe bravura agricultura ternura existe
êxtase e agrura noites escuras cultura
sabe que existe paúra botões e abotoaduras
que existe muita tortura cultura
sabe que existe cultura cultura sabe que
existem milhões de outras culturas baixaria
na cultura tanto bate até que fura
socorro Elis Regina a ditadura pulou fora
da política e como a dita cuja é craca
é crica foi grudar bem na cultura nova
forma de censura pobre cultura como
pode se segura mesmo assim mais um
tiquinho coitada representada como se
fosse um nada Deus meu por cada feiúra
sem compostura onde era Pixinguinha
Elizeth Macalé e o Zé Kéti ficou tiririca
pura só dança de tanajura porcaria na
cultura tanto bate até que fura. Que pop
mais pobre, pobre pop.
Neste quase manifesto, o “eu” vem desencarnado
do significado, deixando a canção mais
livre para outros intérpretes, mas sem deixar
de reafirmar a idéia prosaica desde sempre, de
rapsódia, cuja narrativa, inclusive, vem formalmente
em prosa, cheia de ressonâncias e falas
sincopadas na companhia do violão de breque,
juntamente com o ritmo da voz ocupando o
centro do trabalho. A canção reafirma a característica
de obra transbordante, numa imensa
lista de nomes próprios e adjetivos depreciativos
para o sujeito da canção, que é a própria
cultura, em contraste com o seu uso no título,
podendo ser interpretada como uma menção
saudosa dos tempos da Lira Paulistana, mas,
sobretudo, uma crítica afiadíssima à morosa
produção cultural da época.
Na esteira dessa expressiva canção, cabe perguntar:
que voz é essa e qual a sua ascendência
possível? O que significam os “nãos” e os
“contras” permanentes de Itamar à indústria
cultural e os seus representantes-mitos? Em
texto intitulado “O caráter destrutivo”, Walter
Benjamin lança algumas luzes que podem nos
ajudar a entender a essas e outras perguntas
aparentemente simples. No texto, Benjamin
aponta para aquele indivíduo cujo caráter tudo
destroi porque acredita que nada é permanente,
mas com a mesma convicção de que há saídas
por todas as direções:10 “O caráter destrutivo é
o inimigo do homem-estojo. O homem-estojo
busca sua comodidade, e a caixa é sua essência.
O interior da caixa é a marca, forrada de
veludo, que ele imprimiu no mundo. O caráter
destrutivo elimina até mesmo os vestígios da
destruição”. O caráter destrutivo “não tem o
mínimo interesse em ser compreendido”, ao
contrário, “provoca mal entendidos, assim
como o faziam os oráculos – essas instituições
políticas destrutivas”.11
O compositor paulistano não alimentava um
ideário romântico, de simples autoexclusão ou
“marginalidade”, pelo contrário, mergulhado
na sua própria complexidade, propunha ruptura
e ironizava sobre os restos mastigados pela
indústria cultural, articulando-se com um “eu”
cheio de duplos e triplos significados, como em
“Por que que eu não pensei nisso antes”: “pensei
em seduzir você com algo bem provocante
/ gingando num bambolê me equilibrando em
barbante / dançando numa TV coberto com
diamantes”.
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Tags:download, itamar assumpção, literatura, livros, pdf, Recomendo, são paulo, SLMG, suplemento literário
Chorumela nº 8

Fluoxetina, Seretide
Caieína em doses mansas e persistentes.
O Chet a Nina o Miles.
A conta, a Paz a Vida.
Tudo isso não conheço sem olfato. Esta aridez no ar.
É inverno e além do mais…
- Slêncio para um solo de flugel horn -
Inventei a fossa, e agora?
Agora eu danço, equilibrista no cadarço do all star.
Agora eu penso no pró
ximo passo – Julho e musgo de carvalho,
cujo incenso é fluxo dos meus cachos pelo quarto vazio.
Existe uma palavra.
Procuro no infinito de uma fotografia velha:
Uruguayana, perto do bosque dos jequitibás.
Eu em meu carro vermelho, pedalando. Tem uma criança que não conheço mais.
Estou sorindo la no fundo, no centro de tudo, eu existo.
- Existe uma outra coisa ali. Bem ali, perto da cor vermelha.
- Silêncio para um soluço.
Júpiter.
( Quando cheguei de lá, não sabia dizer um monte de palavras.
Hoje sei que elas são como um silêncio que a gente diz).
E cantar envolve certa força, mas eu tenho as vias dilatadas e por isso desafino.
Não fumo. Andei uma vez a cavalo, e foi como virar Centauro.
Fumo sim. Ás vezes.
Conheci Bob Dylan tarde demais.
- Um trago.
-Qantos mais essa minha’sma compra?
Time and time again…
O Chet e coisa e tal.
É inverno, e além do mais…
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